Halden, a prisão mais “humanizada” do mundo

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Um estabelecimento penal que cheira a café recém passado e é incrivelmente quieto e sossegado. Assim é que a prisão de segurança máxima Halden, localizada na Noruega, que abriga assassinos, estupradores e pedófilos, foi definida por Amelia Gentleman, em sua visita em 2012. Só a partir desta simples descrição, já se pode ter certeza de que não se trata de algo comum, uma vez que quem conhece o sistema prisional de perto sabe que as principais características de uma prisão é o cheiro forte de pessoas confinadas e o ruído incessante, sejam de conversas, de brigas ou de portas batendo.

O referido estabelecimento penal foi inaugurada em 2010 e, desde então, recebeu o título de “prisão mais humana do mundo”, em que, segundo a justiça criminal norueguesa preza mais pela reabilitação, em detrimento da punição propriamente dita.

 

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Implantada em meio a um grande bosque, os blocos celulares remetem a um minimalismo chique. O ambiente mais parece ser um hotel de luxo do que um local destinado à abrigar pessoas a quem se atribuem crimes horrendos. Todas as celas são equipadas com televisão de tela plana, banheiro completo individual (com porta, inclusive, para dar maior privacidade), dentro do qual podem ser encontradas toalhas limpas. Cada detento possui o seu próprio frigobar, armários e escrivaninhas, além de janelas – sem grades!!! – com vista para a floresta.

 

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Apesar do foco ter sido dado ao design, de modo a permitir que o ambiente fosse iluminado e “positivo”, houve preocupação em se assegurar, de alguma forma, de que se tratava de uma prisão. Assim, foram construídos grandes muros de concreto.

 

 

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A arquitetura prisional foi a mais “fora dos padrões” possível, evitando qualquer tipo de semelhança a qualquer ideia que se possa ter de uma prisão. A intenção, ao contrário, teria sido criar a maior sensação de “normalidade” que se pudesse alcançar, fazendo com que a vida intramuros fosse mais parecida com aquela que se costumava levar extramuros. Tal princípio baseou-se, em parte, ao próprio sistema penal norueguês, que não prescreve pena de morte e tem como tempo máximo de enclausuramento de 21 anos.

Algo que foi mantido em mente foi que todos os presos um dia retornarão à sociedade. Neste sentido, o que se manteve como diretriz foi “qual tipo de vizinhos gostaríamos de ter quando eles saírem de seu confinamento?” ao invés de “vamos devolver o mal com a mesma moeda”. A vingança não traz benefícios a ninguém e certamente não melhora o caráter do indivíduo criminoso.

As celas são abertas às 7:30 da manhã e o toque de recolher é às 8:30 da noite. Durante o dia, aos detentos são oferecidas atividades relacionadas a trabalho e estudos, sendo que eles recebem incentivos diários pagos em dinheiro para que deixem suas celas. A justificativa para tal gestão é que se a pessoa é deixada presa ao ócio, os presos se tornam mais agressivos. A ociosidade não faz bem a ninguém. Quando as pessoas se ocupam, elas se tornam mais felizes e, por isso, a ideia é não “institucionalizar” o preso.

 

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Com isso, o papel do guarda é promover a interação entre os presos, dialogar e aconselhá-los, de modo a focar no combate à criminalidade. O maior esforço é garantir que eles tenham para onde ir, um trabalho, e que os seus laços familiares e afetivos não sejam desfeitos. E isso se torna óbvio ao se deparar com pequenas casas de dois quartos, que são destinadas às famílias que resolvem pernoitar ao visitarem seus entes enclausurados.

 

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Apesar dos altos custos de manutenção, uma vez que há muitos mais funcionários do que presos propriamente ditos, e da beleza da edificação, aqueles confinados em Halden não se sentem “hospedados em um grande hotel de luxo”.

Kent, um senhor de 43 anos à época da entrevista, sentenciado a três anos, afirmou: “A prisão Halden já foi comparada aos melhores hotéis. Essa é a impressão que as pessoas ficam ao ler reportagens de jornais. Mas não é verdade. A principal questão ainda é a liberdade, que é tirada de você. Essa é a pior coisa que pode acontecer a alguém. No final do dia, as portas ainda se fecham à sua frente e você fica dentro desse pequeno quarto, sem ter aonde ir. É sempre difícil lidar com isso”.

Apesar das grandes controvérsias, observa-se que existem sim tentativas de se criar espaços melhores para garantir que a justiça criminal seja efetivada. Neste sentido é que se precisa inovar mais, tentar novas experiências, já que, sem sombra de dúvidas, já é claro que a repetição de modelos medievais não tem levado a lugar algum.

 

Leia reportagem completa em inglês.
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Este post tem um comentário

  1. Jacinta

    Obrigada pela matéria sobre o sistema penitenciário da Noruega,que enche de esperança o meu desejo de ajudar os presos do Brasil.

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